Praia do Goiabal

O litoral do Amapá tem quase 700 km de extensão e apenas três “praias”: Fazendinha, Boca do Inferno e Goiabal, segundo o Guia de Praias 4 Rodas. A da Fazendinha fica a 13 km de Macapá e é considerada praia porque abriga certa infraestrutura de lazer para receber principalmente a população de Macapá. Pode ser considerada uma praia fluvial, já que recebe mais a influência do Amazonas do que propriamente do Atlântico. As outras duas, Boca do Inferno e Goiabal, ficam bem mais ao norte, na ilha de Maracá e Calçoene respectivamente. A grande verdade é que no Amapá não existem praias, se formos definir praias como aquelas faixas de areias banhadas pelo Atlântico, com vegetação quase sempre de restinga ou de coqueiros, com barraquinhas de sol onde as pessoas tomam sua cerveja e pegam um bronzeado, ou seja, a eterna praia que habita o inconsciente coletivo da maioria dos brasileiros. Resumindo: Ipanema! O litoral do Amapá recebe a influencia não só do maior rio do mundo, o Amazonas, mas também do Araguari, onde acontece o internacionalmente conhecido fenômeno da pororoca como também do Oiapoque, já na divisa com a Guiana Francesa. Para conhecer de fato o litoral do Amapá só há uma alternativa, de avião. Saímos de Macapá (era 1997) num pequeno avião em direção a Calçoene acompanhando a linha da costa e foi então que pudemos comprovar ser impossível caminhá-lo. O Amazonas, que avança mar adentro, deposita seus sedimentos, lama e restos de vegetação, ao longo deste litoral, tornando impossível percorrê-lo. O piloto do avião brincava conosco dizendo que quem quisesse caminhar por ali deveria levar um chapéu. Assim quando a equipe de resgate chegasse ao local poderia localizar onde o andarilho havia afundado. Mesmo de barco é difícil conhecer este litoral. Manoel Português, grande navegador, nos havia dito que este litoral é perigoso por vários motivos; muita lama e bancos de areia que podem fazer o barco encalhar, aliado às fortes correntezas, além da grande amplitude de maré (4 metros) que pode pegar o navegador desprevenido. Fomos seguindo basicamente a linha da costa até atingir a ilha de Maracá, uma Estação Ecológica. Vez por outra fazíamos um vôo mais raso e manadas de búfalos se dispersavam com o ronco dos motores. Finalmente chegamos à temerosa Boca do Inferno, local tão desabitado como todo o trajeto que havíamos feito até então. Até o momento podíamos comprovar: “No Amapá não tem praia!”, mais um pouco e chegamos a Calçoene, onde pousamos. Antes, aproveitamos para fazer umas imagens da “praia” do Goiabal. Uma espécie de colônia de férias a 23 km de Calçoene por estrada de terra. No “aeroporto”, campo de pouso de Calçoene, fomos deixados pelo piloto que tinha de retornar para Macapá. Esperamos por cerca de meia hora até que apareceu uma Toyota vermelha com o prefeito e um assessor. Fomos recebidos com entusiasmo pelas autoridades que nos convidaram para entrar e seguir para Calçoene. Na boleia, ao meu lado, uma “12”! Perguntei se era para matar onça ao que o prefeito respondeu: “Sim, para matar onça que anda em pé”. Dia seguinte voltamos para o Goiabal de carro para ver de perto a “praia”. O prefeito de Calçoene na época, pernambucano, concordou plenamente conosco de que Goiabal não podia ser considerada uma praia, levando em consideração os conceitos do “ao sul do Equador”, e que elas não existiam no Amapá. Durante o vôo percebemos também que o Amapá além da floresta amazônica comporta uma variedade de ecossistemas, todos eles muito bem preservados: mangues, cerrados, campos, além de charcos e alagados que lembram o pantanal. Polêmicas sobre se existem ou não praias no Amapá a parte, esta variedade de ecossistemas faz deste estado e seu povo alegre e acolhedor um lugar exuberante onde o turismo ecológico, científico, de aventura e educacional têm grande potencial.

Sobre o Autor

Equipe Brasil Passo a Passo

Textos: Sérgio Rondelli
Fotos: Canario Caliari
Videos: Mauricio Galdieri

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Uma Reposta

  1. AndersonAraujo

    Olá… Tenho 32 anos. E com 16 eu queria saber como eram as praias do Amapá… Brincava dizendo que queria construir um complexo hoteleiro pq se ninguém ia com certeza devia ser algo deserto, e por isso bonito… Um paraíso. Mas o impressionante é que ninguém sabia com era esse litoral… Nem o próprio pessoal que vinha de Macapá sabia direito. Perguntava pra quem pudesse saber mas pela ignorância geográfica achavam que o Amapá não existia costa… Imagina… Mais tarde uma menina me disse que não existia praia… E eu pensava: como uma costa de mais de 700 Km não tem praia? Depois no fantástico eu vi que só tinha Goiabal. Na mesma época surgiu o Google Earth e comprovou que realmente não existia praia… Hoje é a primeira vez que vejo um conteúdo que fala desse assunto na internet. Maravilha!

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